Com a cesariana planeada para dia vinte, não era suposto a little Jazz ter feito a sua aparição ainda, mas de facto eu tinha desconfiado que, tendo ela demonstrado uma vontade tão firme para um pedacinho de gente de cerca de dois kilogramas, não ía aceitar sem luta que lhe impusessem uma hora para nascer, assim, sem mais nem menos!
Na quinta-feira ao fim do dia comecei a sentir dores diferentes das familiares dores de ligamentos… um moído permanente no baixo ventre. Tomei analgésicos e um banho de imersão para tentar mitigar a dor, mas sem resultados. Por volta das nove o Matt telefonou para o hospital e eles mandaram-nos lá ir, para eliminar a hipótese de que o parto estava eminente. So de pensar na possibilidade, o Matt entrou num estado se transe em que se mexia de uma lado para o outro como uma barata tonta, privada de qualquer sentido de orientação ou de sentido no discurso. Optámos por chamar o amigo taxista (o que lhe ía comprar McDonalds a meio da noite para matar os desejos da gravidez!…) para efectuar o percurso de dez minutos, evitando males maiores.
Fui admitida na maternidade, colocaram-me sob observação e fui vista pelo médico que me traçou o plano de acção: se possível, esperar por Quarta-feira pela cesariana programada, se a situação progredisse para o parto, cesariana de emergência. O monitor evidenciava contrações que eu identificava como um pico no nível das dores. Passada uma hora as contrações estavam claramente estabelecidas, com intervalos de mais ou menos dez minutos. O Big foi para casa e eu estabeleci uma curiosa rotina de contrações e pequenos periodos de sono entre as mesmas, ainda que as dores que as acompanhavam aumentassem de intensidade ao longo da noite.
Finalmente às 5.40, aquando de uma contração, senti um jorro de liquido tépido por entre as minhas pernas…informei a enfermeira, o médico de prevenção foi chamado e este confirmou que estava em trabalho de parto. Telefonei ao Big, que imediatamente entrou em estado de choque. “Acho que vou desmaiar!…”-disse ele. “Pois eu acho que não tens tempo para paneleirices dessas… põe mas é esse cú aqui imediatamente!!!!!!!”
Após a ruptura da membrana, as contrações e as dores que as acompanhavam aumentaram vertiginosamente de intensidade… da-se! Que filhas da puta de dores!!!!!! Ofereceram-me Entonox (Oxido nitroso e Oxigenio) e não hesitei em inalar quantidades generosas ainda antes das contrações. Ena man!!!!!! Agora percebo porque lhe chamam ”laughing gas”!!!! A dor continuava lá mas a percepção da mesma é que sofria um twist interessante, com a cabeça a rodar com uma espécie de tonturas agradáveis e uma euforia que não se devia só a pensar que brevemente teria a little Jazz nos braços. E foi neste estado, ainda que tivesse de parar durante as contrações, que o cirurgiao e o anestesita procederam ao consentimento informado, durante o qual os procedimentos, possiveis efeitos secundários e riscos são explicados ao doente e este assina um documento a permitir os médicos prosseguir.
Entretanto o Big chegou e fomos para o bloco operatório…
Não me lembro muito do caminho para o bloco… foi durante uma contração e consequentemente o uso imoderado de laughing gas. Quando chegamos lembro-me de ter olhado para o Matt, super sexy, equipado com a fatiota verde do bloco. Pensei… se pudesse levantar-me dava-te cá um amasso!… mas fiquei-me pela intenção…
Entre as contrações mantinhamos o humor. O Matt não perdeu a oportunidade de fazer a cena do inspector Clouseau em que usa o laughing gas no bandido para lhe extrair um dente. Eu ria-me e chorava… quando me perguntaram se era alérgica a alguma coisa respondi, não, só ao meu marido! Isso somos todas, minha querida, respondeu uma das enfermeiras. Tudo a postos para a epidural, mas não sem antes mais uma puta de uma contração… e finalmente… ahhhhhh! alívio!
Lembro-me de ter uma mão na perna que lentamente se tranformou num bloco frio e estranho ao meu corpo como se fosse pedaço de fiambre saído do frigorífico. Não sentia dores absolutamente nenhumas mas apenas a sensação estranha de sentir pedaços de mim a serem puxados para fora do meu corpo. Posteriormente soube que aquando do nascomento eu apresetava já uma dilatação de 8cm, o que significa que não faltaria muito para a Jazz saltar cá para fora…
Três minuos após o inicio da intervenção ouvi um gritinho leve, como originado por um gatinho aflito. Mostraram-me a bichinha e depois levaram-na para ser limpa. O Matt abandonou o posto dele junto à minha cabeceira e quando terminaram os pontos, regressou com a little Jazz nos braços com um rosto que evidenciava um misto de confusão e êxtase.
Little Jazz nasceu às 7.06 com 2320g e 47cm, com um APGAR score de 9 ao minuto 1 e o mesmo ao minuto 5 e chorou espontaneamente.
No recobro puseram finalmente a little Jazz em contacto com a minha pele e esse foi um momento de indiscritível emoção. Finalmente via o rostinho do serzinho que ha meses sentia mexer dentro de mim…
Cheia de vontade e determinação, a little Jazz agarrou-se à minha mama direita e só a largou passada uma hora. O único prblema da pequena foi a sua temperatura, os prematuros e bebés pequenos têm dificuldade em regulá-la, mas como todos os outros parâmetros estavam bem, em vez de alevar para os cuidados intensivos neo-natais, colocaram-na num bercinho aquecido, o que resolveu o problema.
Recerei bem da cirurgia, sem efeitos secundários dos medicamentos ou outros problemas e cerca de duas horas após o inicio, a enfermeira disse que estavamos demasiado bem para permanecer no recobro.
Já na enfermaria continuamos a recuperar a bom passo, a Jazz continuou a alimentar-se bem, ao contrario da mãe que teve de permanecer sem comer até ao jantar!
No dia seguinte mal me permitiram saí da cama e comecei a andar o mais que podia, apesar das dores. Comecei também a cuidar independentemente da Jazz e em tempo record – apenas duas noites no hospital- estávamos aptas para ir para casa!!!!!!!

